Como se forma um guardião
Todo cão percebe. O que se forma aqui é o que ele faz com o que percebeu.
Um cão de guarda mal formado não é um cão que não percebe nada. É um cão que reage a tudo: ao carteiro, ao vizinho, à criança que corre, ao carro que passa. Ele não está protegendo, está gastando alarme.
A formação existe para elevar o limiar. Quanto mais alto o limiar, menos coisas fazem o cão sair da linha de base, e mais confiável é a vez em que ele sai.
Método do Limiar
Limiar é o quanto precisa acontecer para o cão reagir. Um cão de limiar baixo late para o portão. Um cão de limiar alto deixa o portão em paz e levanta quando alguém passa por ele sem ser chamado.
Quase todo treinamento de proteção do mercado trabalha o outro lado: ensina a reagir. Isso é rápido de fazer e fácil de filmar. O problema é que um cão que aprendeu a reagir sem aprender a NÃO reagir não é um guardião, é um risco morando dentro de casa.
A ordem aqui é a inversa. Primeiro se constrói a neutralidade, depois a obediência sob distração, e só então a resposta. A resposta é a última coisa a entrar, e a primeira a ser testada pela cessação.
Limite
O que não fazemos
Não usamos manguito para vender. Equipamento de mordida tem lugar no treino e nenhum lugar numa foto: a imagem de um cão mordendo diz que ele é caro porque morde, quando o que o torna caro é ele parar.
Não formamos cão para perseguir nem para deter pessoa. O cão sinaliza, marca e permanece.
Não trabalhamos com cão que reprova na avaliação de temperamento, por mais que o cliente insista. Um cão inseguro treinado para proteção não fica seguro, fica imprevisível.
Não entregamos cão a propriedade e família que não reúnem condições de conduzi-lo.
Não prometemos comportamento. Descrevemos o programa, mostramos o cão executando, e dizemos o que cada nível não cobre.
As disciplinas, na ordem
Socialização e neutralidade
Piso instável, escada de metal, guarda-chuva abrindo, criança correndo, moto, tiro de festa. O filhote conhece o mundo antes de ter opinião sobre ele.
É a fase que decide o limiar do cão adulto, e é a única que não dá para refazer depois.
Obediência de base
Senta, deita, fica, junto e vem, com guia e sem guia. Nada de exótico: é o vocabulário mínimo entre um cão de sessenta quilos e uma pessoa.
Sem isso, tudo o que vem depois é força.
Obediência a distância e sob distração
O comando vale com o condutor a vinte metros, de costas, ou fora de vista. Vale com outro animal passando e com o portão batendo.
Um cão que só obedece perto e em silêncio não obedece: ele concorda.
Controle de impulso e limiar
Comida no chão, bola rolando, portão aberto, gato atravessando. O cão aprende a não agir sobre o impulso que sentiu.
É o trabalho mais lento do programa e o que menos rende vídeo. É também o que separa um guardião de um cão perigoso.
Perímetro, alerta e cessação
O cão percorre a propriedade, reconhece o que pertence a ela e sinaliza o que não pertence. Sinaliza sem avançar.
E cessa ao comando dito em voz normal. A cessação entra junto com o alerta, nunca depois: um cão que aprendeu a alertar antes de aprender a parar já é tarde.
Convivência doméstica
Visita entrando, criança em volta, outro cão da casa, veterinário manipulando, mala sendo feita, mudança de rotina.
É a disciplina que o comprador testa primeiro, sem avisar, no dia em que o cão chega.
Nível
Neutralidade
- Verificação independente
TCS-CBKC, o Teste do Cão Sociável, aplicado por avaliador homologado pelo Conselho de Árbitros e pelo Conselho Nacional de Adestramento. Idade mínima de 15 meses, identificação por microchip lida antes do teste, e súmula com aprovado ou reprovado exercício por exercício. A CBKC emite o certificado.
O teste aceita cães com ou sem pedigree, e não tem fase de defesa: ele não avalia nada relacionado a guarda.
O próprio regulamento diz, e vale repetir aqui: a aprovação no TCS-CBKC não transfere nem omite a responsabilidade do proprietário quanto aos futuros atos do seu cão.
- Duração
Não tem prazo fixo, e é de propósito. O nível fecha quando o cão executa os sete exercícios do regulamento em via pública, com distração real, sem que o condutor precise repetir o comando.
Um cão que chega lá em quatro meses e outro que leva oito recebem a mesma chancela. O que se entrega é o resultado, não o calendário.
- Pré-requisito
Quinze meses de idade, microchip e vacinação em dia, que é o que a prova exige. E avaliação de temperamento aprovada, que é o que nós exigimos.
Reprova o cão que demonstra medo generalizado ou reatividade a estímulo neutro. Nesses casos a formação não começa, e isso não é negociável por insistência do comprador.
- O que o cão passa a fazer
Vai a qualquer lugar sem ser um problema em lugar nenhum.
É neutro com estranhos e aceita ser manipulado por veterinário e por tosador. Caminha em guia frouxa por dentro de um grupo de pessoas. Permanece onde foi deixado e volta quando chamado. Cruza com outro cão sem se alterar. Não desmonta com estímulo inesperado, e fica sozinho, ou com um terceiro, sem se desorganizar.
Nenhuma dessas coisas é proteção. Todas elas são a base sem a qual proteção vira risco.
- O que você passa a esperar
Um cão grande que você conduz sozinho, sem força. A diferença aparece nas coisas pequenas: o portão que abre sem drama, a visita que entra sem ser recebida no peito, o passeio que não é uma queda de braço.
- Como é testado
Nível
Discernimento
- Verificação independente
TI-CBKC, o Teste de Índole, julgado por árbitro homologado, com figurante oficial homologado pelas comissões de IGP e de Mondioring.
É o teste que mais se parece com o que vendemos, e ele testa três coisas na mesma sessão e nesta ordem. Primeiro, calma diante de pessoas inofensivas: o condutor passeia entre quatro pessoas paradas em círculo, alguém conversa com ele e aperta a sua mão, e o cão não recebe uma única ordem. Depois, indiferença ao barulho: dois estampidos a vinte metros. Só então a defesa do condutor, e ela termina no larga ao comando, com o regulamento proibindo qualquer forçamento para soltar.
A súmula qualifica sociabilidade, reação ao barulho, impulsos, autoconfiança, vontade de trabalhar e resistência à pressão como pronunciada, existente ou insuficiente.
Não fomos nós que escrevemos esse teste. Ele reprova tanto o cão que ameaça quem apertou a mão do dono quanto o cão que não larga sob pressão. É a nossa tese, redigida como regulamento por outra gente.
- Duração
Contado a partir da conclusão do Nível I, e igualmente sem prazo fixo. O critério é o cão sinalizar a aproximação não anunciada e cessar ao comando, com figurante desconhecido, sem equipamento de proteção e fora do ambiente de treino.
- Pré-requisito
Nível I concluído e aprovado. Quinze meses de idade, que é o mínimo do TI-CBKC. Estrutura física compatível com trabalho de perímetro e ausência de reatividade a ruído.
- O que o cão passa a fazer
Obedece a distância e sob distração: mantém a posição com o condutor fora de vista, com outro animal passando, com portão batendo.
Percorre o perímetro da propriedade e sinaliza presença estranha sem avançar. Contém e late sem morder, que é a peça mais subestimada do treinamento inteiro: é o único momento em que o cão demonstra estar em ativação máxima e escolher não morder.
E cessa ao comando dito em voz normal. Distingue quem entra com autorização de quem entra sem, e permanece neutro com prestador de serviço apresentado pelo dono.
- O que você passa a esperar
Um cão que avisa antes de qualquer coisa acontecer, e que para quando você manda. É o nível em que a propriedade passa a ter um perímetro vivo, e não um alarme que dispara depois.
Nível
Guarda
- Verificação independente
Metade deste nível é auditada por terceiro, e metade não é. A separação está declarada porque esconder qual metade é qual seria o único jeito de mentir aqui.
A outra metade é o nosso Programa de Propriedade, e ele não é certificável por ninguém. Não existe certificação de cão de guarda de propriedade, em federação nenhuma, em país nenhum. Todo concorrente escreve "Nível 3 certificado". Nós preferimos explicar por que essa certificação não existe.
- Duração
A partir da conclusão do Nível II. Aqui o critério deixa de ser o que o cão faz e passa a ser o que ele deixa de fazer: o nível fecha quando a cessação é confiável no meio do impulso, com a família presente e sem equipamento de proteção.
É o único nível cujo prazo depende mais da maturidade do cão que do treino, e por isso é o que menos aceita pressa.
- Pré-requisito
Nível II concluído e aprovado, e maturidade.
- O que o cão passa a fazer
Mantém a posição com a família recebendo visita, com criança correndo e com barulho de obra.
Marca direção e intenção sem avançar, e interrompe a marcação ao comando dito em voz normal. É a cessação, e não o avanço, que este nível prova.
Distingue visita anunciada de aproximação não anunciada, e convive com quem trabalha na casa. Acompanha uma pessoa em deslocamento dentro da propriedade sem alterar o passo dela.
O que subiu de nível aqui não foi a intensidade. Foi o discernimento.
- O que você passa a esperar
Um cão que você esquece que está ali até o momento em que precisa dele. É o que separa o guardião do cão perigoso: os dois percebem a mesma coisa, e só um decide o que fazer com ela.
- Como é testado
Avaliação interna, na propriedade do cliente ou em ambiente equivalente, com a família presente e sem equipamento de proteção. O critério que reprova não é falta de reação: é reação que não cessa.
- O que não está incluído
Entrega
Adaptação ao local
O cão não é entregue no portão. Ele é apresentado à propriedade, à rotina e a cada pessoa que mora nela, com o treinador presente pelo tempo que a adaptação exigir — que não é o mesmo para todo cão nem para toda casa.
Quem vai conduzir o cão no dia a dia treina junto, porque o repertório é do par e não do animal sozinho.
Como os níveis se encadeiam
Os níveis são cumulativos e não se pulam: o Discernimento pressupõe a Neutralidade concluída e aprovada, e a Guarda pressupõe o Discernimento.
A razão não é burocrática. Um cão que aprende a responder antes de aprender a não reagir fica com o repertório na ordem errada, e essa ordem não se conserta depois — refaz-se do começo.
